segunda-feira, 5 de agosto de 2013

COMO ASSIM [OUTRAS] COISAS?

Por Marcelo Berti

Será que Colossenses 1:16, 17 (ALA) exclui Jesus de ter sido criado, ao dizer “nele foram criadas todas as cousas . . . tudo foi criado por meio dele e para ele”? A palavra grega traduzida aqui por “todas” é pán‧ta, forma flexionada de pas. Em Lucas 13:2, ALA traduz isso por “todos os outros”; BV “os demais”; HR diz “todos os mais”. (Veja também Lucas 21:29 na BLH e Filipenses 2:21 na PIB.) Em harmonia com todas as outras coisas que a Bíblia diz a respeito do Filho, a NM atribui o mesmo sentido a pán‧ta em Colossenses 1:16, 17, de modo que reza, em parte, “mediante ele foram criadas todas as outras coisas . . . Todas as outras coisas foram criadas por intermédio dele e para ele”. Assim, indica-se que ele é um ser criado, faz parte da criação produzida por Deus.[1]

Muitas pessoas querem saber a verdade sobre quem Jesus é, e a frase acima demonstra exatamente isso. Algumas pessoas acham que Ele é o Criador de todas as [outras] coisas encontradas no universo. Ou seja, embora seja Ele um ser criado por Jeová, ele é criador com Ele de todas as [outras] coisas. Isso é exatamente o que lemos na citação acima, retirada do livro Raciocínios. Mas, será isso mesmo verdade?

Nossa primeira observação a esse argumento é que o adjetivo grego “pas” é usado 1243x em todo o Novo Testamento, e o autor está fundamentando sua tradução em três ocorrências. Em outras palavras, 1240 ocasiões são menos importantes que essas três. Ou seja, a tradução proposta pela TNM, seguindo o argumento desse autor, é fundamentada na exceção do uso do adjetivo “pas”. Nossa pergunta nesse ponto é: Isso é válido?

Para responder a essa pergunta, vamos analisar os exemplos que o autor oferece. Em Lc.13.2 lemos na TNM: “Ele lhes disse, assim, em resposta: “Imaginais que esses galileus se mostraram piores pecadores do que todos os outros galileus, porque sofreram tais coisas?”. Note que o termo galileus é usado duas vezes e que o texto faz clara distinção entre dois grupos distintos de galileus. Ou seja, o próprio texto estabelece um contexto em que o adjetivo “pas” não possa significar todos em absoluto, mas todos em distinção do grupo previamente identificado. Portanto, parece óbvio que o segundo grupo de galileus não é o mesmo do anterior, tendo a inclusão do termo “outros” ou não. Segue-se que, nesse caso o contexto exige tal inserção. Mas que dizer de Cl.1.16: nesse texto vemos esse indicativo?

Em Lucas 21.29 lemos na TNM: “Com isso contou-lhes uma ilustração: “Reparai na figueira e em todas as outras árvores”. Note que o caso é similar: Dois grupos distintos de árvores são contrastadas, as figueiras e as demais. Nesse caso, como no anterior, o contexto exige tal distinção. Será que tal exigência é vista em Cl.1.16?

Em Filepenses.2.21 lemos na TNM: “Pois todos os outros estão buscando os seus próprios interesses, não os de Cristo Jesus”. Novamente dois grupos contrastados: os cristãos e os demais. Novamente vemos que quando o contexto exige a distinção, o uso do termo “outros” na tradução não é um equívoco, mas uma necessidade. Mas, em Cl.1.16 vemos essa exigência e necessidade? Com que criação as “outras” coisas foram contrastadas?

Note que o autor responde a essa pergunta: “Em harmonia com todas as outras coisas que a Bíblia diz a respeito do Filho, a NM atribui o mesmo sentido a pán‧ta em Colossenses 1:16, 17, (…) Assim, indica-se que ele é um ser criado, faz parte da criação produzida por Deus”. Ou seja, o autor não encontrou no contexto do texto qualquer indicação de contraste sendo realizada, e de pronto, julgou necessário recorrer à sua teologia para justificar a versão da TNM. Note que tal autor nada apresenta sobre “todas as outras coisas que a Bíblia ensina”, apenas diz que o todo das escrituras afirmam que Jesus é Criado.

Vamos considerar, portanto, que tal autor entende o termo “primogênito” como um indicativo de sua criação. Aliás, pouco antes no mesmo texto ele atesta: “a Bíblia aplica esta expressão unicamente ao Filho. Segundo o significado costumeiro de “primogênito”, indica que Jesus é o mais velho da família dos filhos de Jeová[2]”. Segundo esse autor, o texto de Paulo utiliza o sentido costumeiro de “primogênito” e conclui que Jesus é a primeira criação de Deus. Entretanto, esse não é o único argumento em defesa da TNM, pois o autor completa:


“Antes de Colossenses 1:15, a expressão “primogênito” ocorre mais de 30 vezes na Bíblia, e em todos os casos em que é aplicado a criaturas viventes, tem o mesmo significado — o primogênito faz parte do grupo. “O primogênito de Israel” é um dos filhos de Israel; “o primogênito de Faraó” é um da família de Faraó; “os primogênitos dos animais” são eles próprios animais. O que faz com que alguns atribuam, então, um significado diferente a “primogênito” em Colossenses 1:15? O emprego bíblico, ou a crença à qual já se apegaram e para a qual procuram prova?”

Note que o autor descarta a possibilidade de outro sentido para o termo primogênito afirmando que os que o fazem prestigiam sua teologia e não as escrituras, pois, segundo ele, o termo primogênito nunca é usado nas escrituras nesse sentido. Todavia, essa afirmação não é verdadeira. Devemos ainda lembrar o leitor que o termo grego para primogênito é usado diversas vezes na Septuaginta e nem sempre é usada no sentido usual que o autor propõe. Por exemplo, em Gn.4.4 o termo é usado descrever a parte mais importante de um rebanho. Em Ex.4.22 o mesmo termo grego é usado, muito embora o sentido auferido descreva o relacionamento de Israel para com Deus. Em Ez.44.30 vemos a mesma idéia de Gn.4.4, que trata da parte mais importante de uma plantação que deveria ser ofertada aos sacerdotes. Mesmo no Novo Testamento vemos o texto de Hb.12.23 cujo o uso do mesmo termo é feito com diferente do proposto pelo autor da STV. Mas, devemos lembrar que, realizar essa análise e ignorar o modo como Paulo usa esse termo, de nada adianta, afinal, não procurarmos saber a definição de “primogênito”, mas o modo como Paulo usa o termo.

Por isso, observe que Paulo além de chamar a Cristo de “primogênito de toda criação” (v.15), também o chama de ”primogênito dentre os mortos” (v.18). Nesse momento percebemos que Paulo não está fazendo uso do termo do modo costumeiro, visto que ninguém poderia ser o primeiro nascido dentre os que morreram. Isso não faz qualquer sentido. Ao que o contexto (textual) de Cl.1.16 indica, o termo primogênito não está sendo utilizado no sentido q de filho que tem a primazia sobre a herança do Pai, conceito recorrente na teologia de Paulo (Rm.8.17; Gl.3.29; 4.7; cf. Hb.1.2).

Além disso, devemos lembrar que não encontramos no texto de Cl.1.16 nada que demonstre que o termo “toda criação” esteja em contraste com o termo primogênito. Ou seja, ainda que o significado do termo seguisse o modo usual defendido pela STV, não encontramos a mesma necessidade da inserção do termo “outras” como vemos nos textos usados como exemplo pelo autor. Portanto, concluímos que tal inserção é desnecessária e motivada por teologia.

O problema da interpretação proposta nesse parágrafo é sua contradição explícita com outro verso das escrituras, que na TNM é lido assim: “Todas as coisas vieram à existência por intermédio dele, e à parte dele nem mesmo uma só coisa veio à existência” (Jo.1.3). Observe que no desejo de defender Jesus como criatura, o autor acabou entrando em franca contradição com Jo.1.3 que diz que Jesus é o responsável pela existência de todas as coisas, e que SEM ELE nada do que existe veio à existência. Ou seja, se Jesus foi criado, segundo Jo.1.3, isso significa que Ele se criou, o que é impossível.

O grande mal de assumir que as inserções são de fato texto inspirados é construir teologia e ensinar baseado nessa inserção. Observe o que lemos na obra Estudo Perspicaz:


Jeová também mostrou amor ao conceder ao seu primeiro criado Filho espiritual o privilégio de participar com Ele em todas as demais obras criativas, tanto espirituais como materiais, fazendo generosamente com que este fato se tornasse conhecido, com a honra resultante para seu Filho. (Gên 1:26; Col 1:15-17) Assim, não receou tibiamente a possibilidade duma competição, mas, antes, demonstrou inteira confiança em sua própria Soberania legítima[3]

Observe que o texto já inicia com a declaração de que Cristo é criado e que foi convidado a criar as outras coisas, debaixo da autorização do Pai. Contudo, o fundamento para essa afirmação teológica, segundo esse autor, é o próprio texto de Cl.1.16. Ou seja, Jesus é criado e co-criador por que Cl.1.16 diz. Note que a distorção já não precisa ser analisada, apenas apresentada. Porém, vemos nessa afirmação a teológica ser construída sobre um termo que não faz parte do texto do apóstolo Paulo, mas trata-se de uma inserção da STV. Ou seja, mais uma vez o texto do apóstolo Paulo tem pouco valor, o que importa é a inserção e a promoção da teologia da STV. Os Testemunhas de Jeová que leram essa citação e abriram suas TNM para verificar as citações, entenderam que tal afirmação era verdadeira pois estava nas escrituras. Mal sabem eles que foi tal teologia que colocou tal idéia na TNM.

Portanto, devemos admitir que colocar o termo [outras] no texto de Cl.1.16 não é justificado pela gramática do texto, pela semântica do termo grego “pâs” no uso que é feito nesse texto, e que tal inclusão faz com que o significado do texto entre em conflito com outras passagens da escritura (Jo.1.3). Segue-se que não parece justificada a tentativa de chamar Jesus Cristo de um ser criado, por que a Bíblia ensina que Ele é Criador.

Notas

[1] Pp. 400-1.
[2] Pp.400
[3] Estudo Perspicaz, Vol.2, pp.502

Fonte: Teologando

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